Os olhos do aposentado Guerino Ronchetti só se apertavam porque o seu dono não resistia à emoção nas tribunas de honra do Olímpico pelo fato de assistir pela primeira vez a um Gre-Nal em sua longa vida de 97 anos. Seu Guerino só usa óculos para ler as "letras miudinhas" do jornal. Por isso, veio de Guaporé, pelas mãos do consulado local, e nem trouxe óculos para ver esse clássico. Tinha de assistir a um clássico porque, afinal, passou os 58 anos do Olímpico sonhando com isso e nunca foi possível viajar a Porto Alegre.
_ Isso aqui é de outro mundo _ maravilhava-se Guerino, quieto, constrangido com a agitação do torcedores.
Passou parte do jogo ao lado do astro Michel Teló e do prefeito de Porto Alegre, José Fortunati nas tribunas. Não entendeu quando um batalhão de tietes pedia autógrafos e fotos para o guri a seu lado:
_ Nem sei quem é!
Mas o prefeito o cumprimentou, e Guerino ficou todo faceiro. Só balançava a cabeça de insatisfação diante dos ataques do Grêmio. Em nenhum momento mostrou irritação, mas queria mais do seu time. O tempo foi passando e o seu prognóstico de 2 a 0 para o seu Grêmio ficava cada vez mais longe. Quando estourou a briga campal, ele levou as mãos ao rosto como se o amparasse com os cotovelos sobre as pernas. Já demonstrava nervosismo.
E então mais um bando de garotas e garotos se apertavam para tirar foto com Michel Toló e seu Guerino se prostrava intacto. Em toda a sua vida, nunca tinha assistido a um Gre-Nal e muito menos sentado de vizinho ao lado um astro internacional.
Mas será que ele nunca ouviu falar de Michel Teló?
_ Já ouvi, sim. Mas não sei se é ele.
Até o prefeito aproveitou para usar o celular e registrar o astro _ e tudo isso só emaranhava a cabeça de Guerino. Que afinal, nasceu em 10 de junho de 1915. Neste ano, em outubro, recém havia sido jogado o Gre-Nal número 7. Foi disputado na Baixada, e o Inter venceu por 4 a 1. Agora, 97 anos depois, Guerino é um forte.
Tudo que ele faz na vida hoje é recolher roupa no varal. Passa boa parte do dia jogando canastra no Bar São José e assiste aos jogos pela televisão. É casado há 64 anos com dona Delfina e com ela tem sete filhos que ele criou sendo açougueiro, trabalhador na roça, "chofer" de caminhão e funcionário de frigorífico.
Seu segredo? Desde que tomou um porre, aos 21 anos, jurou nunca mais beber. Tem horror de cigarro e sobre isso tem um recado para dar:
_ O Sant'Ana, se ele prometeu parar com o cigarro, ele tem que parar, puxa!
Tem mais segredo: seu café da manhã tem leite direto da vaca com Neston. Seu almoço é mais prosaico. Tudo que come é feito com banha.
_ Azeite é que traz doenças _ diz ele, ao contrário do que ensinam os médicos.
Come carne de porco e chuleta gorda, com "sustância". À noite, às 19h, faz polenta na banha, coloca queixo e sobre ele derrama dois ovos. Quando não tem jogo à noite na televisão, vai dormir às 22h. Um sono único, até as 6h:
_ Nunca tive colesterol. Na pura verdade, eu estou zero.
Esse mestre de vida se tornou gremista em 1928. Ele tinha 13 anos e, quando possível, conseguia ouvir rádio falando de Luiz Carvalho, Sardinha I e II, Telêmaco, Adão e Macarrão. Mas o time que ele sabe de cor tem Sérgio Moacyr Torres; Ari Ercílio, Aírton, Ênio Rodrigues e Ortunho; Elton, Milton, Giovani; Gessy, Juarez e Vieira.
Seu Guerino agora tem planos de ver o Grêmio na Arena.
_ Mas, se Deus quiser, quero ir lá!








RESPOSTA AO "Aos 97 anos, a estreia em Gre-Nais"
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